terça-feira, 16 de novembro de 2010
Eu sou...
Sou catador de sonhos
Levanto as bainhas, me enfio na lama
Parei de esperar a isca e o anzol
Sangrei os dedos, olhos,coração e mente
Segurei os pingos d'agua que insistiam em escorrer
Meus joelhos já não doem mais
porque ja não mais os sinto
É o meu fardo, é a minha obrigação
Catarei os sonhos
Os agarrarei por mais pesados que sejam
Até me afogar e descobrir
que os sonhos são eternos
e que nós somos suas maiores iscas,
que alimentamos um cardume de ilusões.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
A batalha do gladiador
Protagonista de 'Spartacus' deixa a série para cuidar de um câncer
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Contos de Modernidade- Sobre o Fim

O clarão que anuviou a minha visão ainda projetava floreios brancos de luz à minha volta. Detritos e fumaça se misturavam ao caos de estrelas e poeira. Nunca em tanto tempo de existência, vi algo tão belo e tenebroso quanto o que acabei de presenciar.
O homem estava na sua mais perfeita forma, os sentidos impecáveis, a tecnologia alcançara patamares inacreditáveis de evolução, mas nada disso pôde impedir o que aconteceu. Se algum tipo de ser ou criatura quiser algum dia saber o que aconteceu naquele pontinho do universo, terá somente o pó para responder.
Na verdade eu já estava morto quando tudo aconteceu, não sei bem quando morri, nem me lembro como, mas sei que foi a pelo menos 500 milhões de anos. Não me pergunte por que ainda estou aqui, simplesmente morri e o famoso túnel com a luz ao fundo não apareceu. Com o passar do tempo as pessoas que eu conheci se perderam em algum lugar da minha mente, assim como eu me perdi para o mundo. Antes de partir eu imaginava a morte como um momento de eterna paz, onde encontraria aqueles que já teriam partido, aproveitaria os ônus de ter sempre vivido de forma simples e tranqüila, sem nenhum ato de maldade significativo contra ninguém, mas fui simplesmente reduzido a uma subvida, condenado a vagar pela Terra como um expectador, sem jamais ser visto, ouvido, sem nunca mais ser notado.
Tantos milhões de anos se passaram e eu jamais encontrei alguém na mesma situação que eu. No início imaginei que teria uma missão, algo não terminado, procurei todos que conhecia, tentei entrar em contato, só consegui descobrir que todos os médiuns são nada mais que charlatões. Percorri por tudo nesse planeta, conheci desde as florestas siberianas até o topo do Himalaia, desde as casa mais pobres no centro da África, mansões em Mônaco, bombas e tiros no Oriente Médio. Vi países se desfazendo, outros se formando, terríveis desastres ambientais, guerras e mais guerras. Fui também observador da descoberta de curas para doenças consideradas incuráveis, e também o surgimento de avassaladoras epidemias. Mas por mais que eu visse, por mais conhecimento adquirisse, por mais vontade que eu tivesse de sumir finalmente, nada aparecia para me salvar, nenhuma mão se estendia para me regatar da minha própria existência.
Procurei espiar as mais altas autoridades em tecnologia do mundo a algumas centenas de anos atrás, tentar descobrir se eles tinham algum modo em que pudesse contatá-los. Com isso descobri algo que quando era vivo sabia que algum dia ia acontecer. A Terra estava com seus dias contados, em pouco tempo, algo como cem ou duzentos anos (para mim, menos de um segundo) o Sol terminaria suas atividades e a Terra assim como todos os planetas do sistema solar seriam engolidos pela terrível explosão que ocorreria devido à morte da nossa Estrela maior. Não podia haver melhor notícia que essa para mim, tudo estaria terminado, a minha tortura, ou castigo seria finalmente finalizado junto com toda a vida. Por mais que eu nunca imaginasse que estaria aqui para ver isso, era um alívio tamanho para mim, era como se estivesse prestes a tirar um cochilo depois de dias e dias sem dormir.
Aqueles vivos que fizeram essa descoberta secretamente começaram projetos para fugir antes que o inevitável acontecesse. Duas coisas eram consideradas, pelos cientistas, como as maldições da humanidade: a morte e a prisão dos homens na Terra. Isso porque eles nunca conseguiram reverter a morte, ou ao menos contatar alguém como eu, que já havia passado por ela. Também nunca tinham conseguido colonizar nenhum outro planeta, ou chegar a outros sistemas solares, o que prendia o homem àquele planeta que insistiam tanto em maltratar.
Diziam os mais religiosos que Deus havia feito a Terra para o homem e o homem para a Terra, que daqui Ele jamais permitiria que saíssemos.
Quando era inevitável divulgou-se o fim da Terra. Os mais ricos compraram seu bilhete para a vida em espaçonaves de capacidade planetária, que decolariam pouco antes da grande explosão em busca de um novo lugar para morar. Tantos outros se suicidaram ou cometeram loucuras por saberem que o fim estava próximo. Começou uma guerra monstruosa, a mais destrutiva de todos os tempos, onde se disputava quem estocaria mais recursos para viver fora daqui. Em pouco tempo as mega espaçonaves partiram, e só restaram aqueles pobres ou considerados sem importância para a prosperidade. Quem ficou passou a viver como animal, sem perspectiva de amanhã, sem alguém que pusesse controle e organização à situação, pois ninguém aceitava mais ser controlado.
Até que o processo começou. Foi aos poucos, a temperatura subiu gradativamente, e os seres morreram aos poucos, sobrando, perto do fim definitivo, somente a mim e as baratas. Até que um dia um clarão veio ao longe, havia fumaça por todos os lados, e tudo pareceu tão frágil, desintegrando-se como papel no fogo. Eu finalmente suspirei aliviado, era o fim de todo o meu sofrimento, de uma existência sem sentido, não queria que houvesse mais nada depois daquilo, só queria simplesmente deixar de existir!
A luz foi intensa demais e o clarão ficou na minha frente por muito tempo, por mais que tentasse fechar os olhos era só o branco à minha vista. Não sei quanto tempo fiquei daquele jeito. Mas pedia com todas as minhas forças que estivesse em um processo de destruição.
Finalmente recuperei minha visão, mas continuei com os olhos fechados, com receio do que estaria na minha frente. Talvez um homem barbudo, todo de branco, seres com asinhas, mesmo se fosse um chifrudo com um tridente eu o daria um abraço como se fosse um irmão. Mas não foi nada disso que me apareceu. Havia somente destroços, muita poeira. Eram as naves que partiram da Terra, pelo visto eles não tinham ido longe o suficiente para que não fossem atingidos pela grande explosão. E toda a humanidade se reduziu àquilo, pó!
Como uma maldição, a pior de todas as maldições, eu vago pelo universo, pelo espaço vazio, mais solitário que nunca. Impossível existir criatura mais desesperançosa e mais fatigada que eu, com um interminável buraco negro como destino.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Amor de corpo

Te trago como a um cigarro
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
Contos de Modernidade- Sobre a família

Era noite de um dia útil, o apartamento estava silencioso como se não houvesse ninguém, exceto pelo barulho do chuveiro de uma das suítes. Aquela casa era o lar de uma família grande, formada por três filhos, o mais velho com vinte e dois anos, a moça do meio com vinte e o mais novo com onze anos, além do pai e da mãe. Naquele momento o mais novo estava no quarto fazendo o dever de casa no quarto dele, enquanto o mais velho tomava banho no outro quarto para jantar e sair para alguma festa.
A porta da frente se abriu, o pai chegou carregando sacolas de supermercado. Jogou um molho de chaves na mesinha de centro da sala de estar e se dirigiu à cozinha. Desempacotou duas lasanhas semi-prontas e uma garrafa de refrigerante de laranja, pôs o refrigerante no congelador e a lasanha no microondas. O filho mais novo entrou na cozinha e perguntou:
-Cadê a mamãe? Tô com fome.
O pai, sem olhar para o filho , respondeu enquanto pegava um copo d’agua:
-Ainda tá no trabalho, disse pra jantarmos sem ela.
O filho deu as costas, e foi correndo para o escritório jogar vídeo-game. O pai se dirigiu ao maior quarto da casa, onde sentou na cama, retirou os sapatos e meias, foi até a suíte, tirou as roupas, olhou-se no espelho grande acima da pia. A barriga continuava saliente apesar de correr na esteira todos os dias, provavelmente por causa da cerveja diária com os amigos. Nos cabelos ele dera um jeito, pintou-os de preto, e aprendeu um penteado na internet que disfarçava a pequena careca na testa. Tomou uma ducha rápida, pôs uma bermuda e uma camiseta e foi retirar a lasanha do microondas. Foi então chamar o filho no escritório:
-Se quiser jantar, a lasanha ta pronta.
O filho não respondeu, estava com os olhos vidrados e coloridos na frente da TV. O pai sabia que ele tinha ouvido, e foi chamar o filho mais velho. Abriu a porta do quarto e ele estava deitado na cama, somente de toalha, falando com alguém no celular.
-Se quiser jantar, já está pronto.
O filho só abanou a mão pra ele fechar a porta, respondendo “Ok,ok” e o pai saiu, sem saber se o filho havia falado com ele ou com o celular.
O homem colocou os pratos na mesa, a lasanha no centro, sentou-se e começou a se servir. O mais novo chegou correndo como sempre. Sentou-se na mesa, e serviu-se de um pedaço pequeno, pondo no canto do prato coisas que não gostava na comida. O mais velho chegou, ainda de toalha, os cabelos um pouco molhados. Já era maior e mais forte que o pai, com o corpo talhado pela academia, era mais vaidoso que a mãe e a irmã.
-Poxa, lasanha de frango de novo? Ontem você comprou o mesmo sabor!- Disse ele olhando com ar de repulsa para a comida.
-Hum, foi mesmo? Esqueci. Não lembro o que eu comi no almoço.
O filho fez um muxoxo, serviu-se de um pedaço enorme, e começou a comer rápido.
Enquanto comiam, a porta da sala se abriu. A mãe havia chegado:
-Boa noite crianças. –Disse ela enquanto dava um beijo na cabeça de cada um, e um beijo no marido. Todos responderam com grunhidos, por estarem com a boca cheia.
Ela foi até o quarto, deixou a bolsa e o blazer e voltou para a mesa de jantar.
-Vocês esqueceram da irmã de vocês?
O pai bateu com a mão na testa. Havia esquecido que tinham combinado de jantar com a filha.
-Bom, espero que ela ainda esteja lá!- Disse a mãe correndo até o quarto. Voltou com um notebook nas mãos, abriu-o na ponta da mesa e conectou em um programa. Em poucos minutos a filha aparecia na tela do computador. Ela estava a um ano trabalhando na Europa, e sempre que podia jantava com a família.
Todos acenaram para ela, e a mãe se sentou ao lado do computador. Comiam calados, cada qual absorto em pensamentos e problemas.
O filho quebrou o silêncio. Estranho que cada vez que isso era feito na casa era como se uma onda de estranhamento se espalhasse por todos.
-Mãe, você ainda não me deu a minha mesada. Tenho que sair hoje e to sem dinheiro.
-Usa o cartão de crédito.- Respondeu a mãe.
-Tá bloqueado, você não pagou ainda.- Falou enquanto tomava um gole do refrigerante.
-Ai meu Deus, é tanta coisa pra eu pagar! Você podia dar um dinheiro pra ele de vez em quando não é?- Falou ela olhando para o pai, que quase não notara que ela se referia a ele.
-Tô sem dinheiro nenhum, se quiser posso arranjar amanhã.
-Como sempre. Eu tenho que me apertar pra sustentar tudo, e você pra ficar no seu eterno happy hour.-Falou a mãe com a voz estridente e irritada.
Era o início de mais uma discussão na casa, que aconteciam rotineiramente, e geralmente pelos mesmos motivos.
O filho mais novo começou a gritar e fazer barulhos, estratégia para não ouvir as discussões dos pais.
-Se você continuar gritando eu vou te dar uns tapas.- Gritou o pai
-Não grite com ele, vai traumatizá-lo! E se encostar nele eu chamo a polícia.- Gritou a mãe abraçando o filho menor que estava ao seu lado.
O pai engoliu um pedaço grande da lasanha, o rosto em chamas, o filho mais velho revirou os olhos, e o menor ficou ali parado, olhando para o prato. O mais velho levantou-se da mesa, e saiu, em poucos minutos todos haviam terminado. A filha mais velha falou pelo notebook:
-Adorei o jantar família, depois nos falamos, tenho trabalho a fazer agora. Mil beijos.- E desligou a câmera do computador.
O pai foi até o quarto onde ficou assistindo um filme de ação e explosões. A mãe ficou trabalhando no notebook até mais tarde na sala , o mais velho saiu de casa, bem arrumado, e só voltou próximo ao amanhecer. O filho mais novo foi terminar seus intermináveis deveres de casa.
O silêncio foi restaurado naquela casa. Tarde da noite os pais fizeram sexo, ela gemeu um pouco, ele revirou um pouco os olhos. Depois se viraram e dormiram, tinham compromisso de manhã cedo.
Todos foram dormir tranqüilos, mas como toda noite a mente deles emitia um alerta: estava faltando algo...


